quinta-feira, 31 de março de 2011

Crônica - Crise Adolescente

Logo que chegou em casa depois da aula no colégio onde estudava, trancou-se no quarto ainda com a cama desarrumada, os livros no chão e as meias embaixo da cama. Exatamente como havia deixado pela manhã quando saiu. As lágrimas brilhavam com a única luz no quarto, que vinha do computador. Havia alguma coisa piscando nele. Era o ícone do MSN que parecia implorar para que ela olhasse para ele. Seus esforços foram em vão. Ela estava fraca, e não conseguiria levantar sua cabeça cansada, da cama fria. Enquanto isso ele piscava. Alguém precisava muito falar com ela. Mais ela não queria conversa, fosse pessoal ou virtualmente. O ícone desapareceu quase no mesmo tempo que o celular começou a tocar. Mais os olhos cheios d’água nem se moveram para a mesa de cabeceira onde o celular dançava desajeitado com uma melodia triste e estranhamente calma. Ela levantou-se subitamente e sentou-se na cadeira macia, e se pôs a olhar a tela do computador imaginando o que ela mesma estava fazendo ali. O papel de parede mostrava-lhe um rosto inconfundível. Um rosto eternamente fixo nos pensamentos dela. A foto já deixara de ser apenas uma foto. Passara a ser um resquício de lembrança que ora e meia era revivido pela mente insana da jovem. Abriu o Word, amarou o cabelo castanho para trás e começou a digitar um texto que ia aumentando na mesma proporção que as lágrimas caíam. As mãos trêmulas mal conseguiam digitar as palavras certas e os olhos molhados mal podiam corrigir os erros, porque pouco se via. Meia hora depois lá estava. Duas páginas feitas de sentimentos e lágrimas. Palavras que num revés da vida, ainda era capaz de deixá-la feliz. Um sentimento de ironia que a perturbava, mais não queria se prender em sentimentos mesquinhos. Não agora. Não naquele momento. E Principalmente, não ALI! As lembranças presas as paredes daquele quarto reviravam-lhe o estômago e apesar de terem sido perfeitas em algum momento de sua vida, não podiam mais serem lembradas naquele momento específico. Agora aquiesceu-se. Nem seus pensamentos emitiam som algum.O único barulho era o farfalhar ruidoso que o papel fazia quando entrava na impressora para deixar de ser papel, e tornar-se carta. A mais perfeita das metamorfoses criada pelo homem. Enquanto esperava, abriu o livro de crônicas e leu uma de Fernando Sabino chamada: A última crônica. Ironia mais uma vez. Quanta ironia sua mente era capaz de produzir? No Media Player a Cássia Eller Cantava: ♫ ♪ ♫ “Mesmo com tantos motivos Pra deixar tudo como está Nem desistir nem tentar Agora tanto faz, Estamos indo De Volta pra Casa...” Mais uma vez ela: A Ironia fazia-se presente. Causando inda mais um sentimento de solidão e independência dentro da já tão cansada de paradigmas, cabeça da jovem. Era uma pressão infernal. Família, escola, vida pessoal. Como seria bom se pudesse ser três. Ou quatro. Uma só para sofrer as desavenças da vida em seu lugar. Mais ela era sozinha, e não podia mais depender de sonhos impossíveis. Dobrou a carta cuidadosamente, fechou o livro e o guardou junto com os outros no chão do quarto, desligou o computador, pegou alguma coisa na gaveta e ficou por alguns segundos refletindo no imenso escuro do quarto. Depois saiu. No mesmo instante que o telefone voltou a tocar. Como se implorasse para que ela voltasse e o atendesse, vibrava intensamente no quarto vazio. Do outro lado da linha, alguém desesperado que precisava dizer apenas uma coisa: que estava arrependido de tudo, e completamente disposto a recomeçar do zero. A jovem entrou no elevador do prédio em silêncio absoluto, esperando que ele a levasse ao terraço ou mesmo até o céu se fosse possível. Quando finalmente chegou ao seu destino, caminhou com um pesar imenso até o beiral, acendeu seu último Luck Strike e sentou-se ali. Seus pensamentos voaram livres, tal como a fumaça azul que saía do cigarro em direção ao céu. Olhou para o chão e viu a cidade à seus pés. Imaginou o quanto sua vida era igual aquela cidade. Sólida, ininterrupta, mas às vezes invisível. Tudo acabou na mesma hora. O cigarro, seus pensamentos e todos os sentimentos incompreensíveis de sua vida. E naquele momento entendeu que não podia mais voltar. Decidiu ser livre como nunca havia sido, e num sorriso irônico como quase tudo em sua vida, voou em busca da liberdade. O telefone no quarto continuava tocando. Incapaz de perceber que a ausência daquele lugar ia permanecer eternamente. Agora mais do que nunca, era um quarto escuro e vazio, onde as lembranças intensas ficariam gravadas nas paredes, porque no fim; é tudo o que resta. As lembranças, o vazio e o escuro. Não os do quarto, mas os da alma...

Sentado

Sentado, sozinho, quieto.
Em uma praça qualquer
Cercado pelo próprio silêncio
A espera de uma mulher.

Deixado ao acaso
Como num romance sem fim.
Será que um dia serei amado?
Ai, pobre coitado de mim.

Sentado numa praça qualquer
Num triste dia de solidão.
Por dentro sofrendo
Por fora, sem coração.

Homens, mulheres e crianças.
Todas passam sem me notar.
E eu aqui sentado,
Me pergunto se ainda sei amar.


[O mundo passa. Segue seu curso.
...E eu continuo aqui.
Sentado e sem rumo...]

Comparação

Alguém canta num sanatório.
E o sopro que vem do mar
Leva meu coração
Que já cansou de esperar

Alguém chora num funeral
E o vento ainda bate forte
Meu coração cansado
Espera pela morte

Alguém grita numa catedral
E o vento sopra enlouquecido
Meu coração relembra sozinho
D’um simples amor vivido.

O louco, o morto, o santo.
Devaneios de uma vida
Simples que agora canto

O santo, o morto, o louco
De cada um
Todos nós temos um pouco.

Monólogo sobre a loucura

A loucura é uma sanidade sob disfarce. Algo que agoniza a realidade e interrompe a concepção de um mundo motivado pela indecência.
Afinal das contas, não existe loucura se não existir um padrão. E padronizar é o mesmo que dizimar a sociedade em duas partes. As que criticam, e as que são criticadas.
Porém a loucura existe. Isso não é uma contradição. É uma percepção. Não a loucura da alma, que sim é justificada, mais a loucura da mente que apesar de também ter suas justificativas, assume uma postura incógnita e infinitiva. Algo sombrio e tristemente medonho.
Falo porque conheço o mundo. Já provei o gosto da loucura, e hoje convivo com ela.
A loucura da alma.
Não a da mente.
Porque uma constrói
A outra destrói.
E é apenas nesse detalhe vital, que as duas se diferenciam, e tomam rumos extremamente opostos.

Lamento Depois da Morte

Vai ficando longe de mim,
O eco do corpo
No Próprio vento pregado,
E o pálido branco
Nas flores quietas, quebrado.

Mas não se joga com ninguém
O que pensei que se jogaria.
Já não vejo os santos cobertos
Que sempre via.

Tudo foi sobrenatural
E ainda assim
Foi tão igual
Resplandecendo além do fim.

O universo ficou vazio
Porque a mão do amor
Foi partida, e na vida
Ainda faz frio

Nós merecemos a morte
Porque somos humanos
E a guerra é feita por nossas mãos.
E o monstro estranho e instável
Que trazemos no peito fica sem explicação.

Mandei a ti
Meu soldado mais forte
E com todas as armas
Que os levem a morte.



Suspiro do vento
Lágrima do mar.
Meu pensamento
Não sabe matar

Lanço destes altos montes
As frias covas do oceano.
Meu sonho sem horizonte
Claro, puro e sobre humano.

Da varanda do colégio
Ao pátio do sanatório.
Que sopro no cemitério
E estranho falatório.

Minha vida está mudada,
Toda cheia de paredes tortas.
Os animais enlouquecem
E pessoas caíram mortas.

Ontem tinha tudo
E hoje nada tem
E nenhuma lágrima vem.

Fala-se com homens
Com santos, consigo, com Deus.
E ninguém,
Leva minha alma as estrelas
Assim seja, amém.

Poemas Mortos

Não cante seus males.
Tristezas inquietantes.
Grite apenas ao mundo
Felicidades berrantes.

Azul, vermelho, preto.
O céu se esconde sob a tempestade.
Vermelho, vermelho, vermelho.
Meu peito é pura ansiedade.

Dos poemas mortos
Já sobre páginas esquecidas
Anseia meus pensamentos,
Memórias de muitas vidas.

Os berros, os gritos,
Os cheiros, gestos e cores.
Tudo é fruto dum passado
Ilusão de alguns amores.

[O que não serve para ser lembrado,
É sempre mais difícil de ser esquecido...]

terça-feira, 22 de março de 2011

Outono

O Outono mais uma vez chega.
Vestido com a manta da solidão.
Trazendo ventos e desespero
À este pobre coração.

Aqui dentro, tudo é silêncio.
E nada mais faz sentido.
O tempo não parou
Antes de você ter partido.

Dentro de mim, só o que existe
É o que o tempo não pode apagar.
Um homem vazio
Que só consegue chorar.

Talvez você se lembre de nós.
E de que nosso amor um dia existiu.
Hoje em mim, só existe saudade
E em seu lugar, Vazio.

Um dia essa dor vai passar.
Mesmo que você nunca volte.
Continuarei a te esperar.

Porque nenhum outono é eterno.
E um dia, a primavera acontece...

Romantismo

Quem tivesse um amor,
Nessa noite de luar.
Pra pensar um pelo pensamento
E pousá-lo no vento.

Quem tivesse um amor
-Longe, certo e impossível.
Pra se ver chorando e gostar de chorar
E adormecer de lágrimas ao luar

Quem tivesse um amor
E entre o mar e as estrelas,
Partisse por nuvens dormente e acordado
Levitando, apenas pelo amor levado.

Quem tivesse um amor sem dúvidas nem mágoas
Sem antes nem depois, verdade ou alegria
Ah! Mais quem tivesse...
Mais quem teve? Quem teria?

E tão romântico seremos
De tão magoado romantismo
Que as folhas dos galhos supremos
Despencam-se do abismo.

Mensagem aos Anjos Enlouquecidos

Eles sempre vão estar lá fora.
Todos desfrutando de seus momentos de euforia
Agonizando em suas próprias alucinações
Enlouquecidos pela fúria dos que dormem,
Desprezando o apego dos descrentes.
Eles sempre estarão lá.
Prontos pra mais uma carnificina.
Prontos para deturpar a sociedade
Com seus argumentos insólitos
E seus devaneios de agonia
E a noite, novas vítimas virão.
Atraídas pelo cheiro escarlate da morte.
Acreditando ter encontrado um ponto de fuga,
Cometendo um suicídio lento.
Primeiro a mente, depois o resto.
Morte aos que merecem morrer.
Isso é o que esperam,
Mais no fundo é o presságio de si próprio que encontram
E no final, só restará as entrelinhas,
Onde por acaso, está também a lógica disso tudo...

Soneto ao Amor Verdadeiro

uando você partiu
Achei que não poderia suportar
A dor de te ver sair
A dor de ainda te amar.

O tempo passou.
Talvez rápido demais
Seguiu seu rumo
E nos deixou pra trás.

Mais em algum lugar
Permanece à vontade
De poder viver outra vez
Aquele amor de verdade

Enquanto meu peito enlouquecia
Alguém dizia
Que eu não sabia amar.

Enquanto o mundo cantava,
Eu chorava
Sabendo que você não ia voltar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pensamento



O pensamento é a única forma de expressão que não pode ser mainipulada, coagida, ou invertida. O pensamento é livre, dotado de uma liberdade que falta a todos nós fisicamente.
O pensamento é a maior arma de defesa que temos.
Pense nisso!

Palavras não ditas

Não existe nada além de nós.
Nada tão repentino e vazio.
Nada.
Apenas um mundo esquecido.
Algo tão firme, tão sólido
Que eu mesmo já nem posso ver.
Algo entre a realidade
E o sonho.
O sonho.
As cores vívidas,
A sensação de desespero
E o soluço tímido
Das lágrimas escorridas por um rosto simples
Era tudo diferente.
Tudo tão intenso.
Tudo verdade.
Hoje, só restaram os rostos
Meio que perdidos,
Meio que vazios.
Tão cheios de si, que já nem fazem sentido.
Tão tensos, que nem me lembro.
Onde cada poema apenas era
A forma de manter-se livre
Num mundo sombrio cheio de nada.
Ainda havia saída.
Mesmo que ela estivesse distante.
Havia ainda, uma saída.
Como se um novo dia trouxesse novas esperanças.
Como se novas esperanças, trouxessem um novo dia.
No fim das contas,
Tudo o que resta
São as palavras
Que não foram ditas.

Trecho do Livro: Cidade dos Desgraçados de Victor Máximo

Trecho do livro: Cidade dos Desgraçados

“Nada é mais triste do que uma cidade que esqueceu de como viver. O comodismo extrapolava o limite, e o extremo havia sido atingido há anos. Os velhos esperavam a morte calados, entediados por que ela demorava muito. Sedentos por qualquer novidade, esperavam que os jornais anunciassem um novo assassinato. Os casamentos corroíam-se aos poucos, em ritmo contrário aos índices de adultério. As criança, sem entender o que se passava com os pais, desaprendiam a sonhar. O ódio dos adolescentes, sedentos por conhecer os paraísos artificiais das grandes cidades, destruía tudo o que se referia a sua própria cidadezinha.
Entres as ruas suburbanas, a felicidade não tinha mais endereço. Toda essa energia negativa emoldurava as fronteiras da pequena cidade. Essa energia crescia, dosada dia a dia, como um enorme conta-gotas. Uma gota foi suficiente para verter a água. Eles sabiam que algo acontecia nos becos, nas noites sem estrelas. Mesmo assim o conta-gotas pingava. A energia procriava nas sombras, e eles sabiam, sentiam o cheiro. Mesmo assim o conta-gotas pingava. As mutações começaram, os gemidos cresciam, tornando-se gritos. Os gritos vibravam, distorcendo ainda mais a energia. Era como um círculo diabólico e vicioso. Em pouco tempo, eles não estavam mais nos becos e porões. Haviam ganho as ruas e as casas. Seria uma questão de tempo até que se apossassem dos corpos. Eles corriam soltos pela noite, devorando os que ainda acreditavam no amor. Mas não era amor, estavam se enganando, assim como haviam feito antes. Não havia amor naquela cidade. Um dia houve, mas não havia mais.
Até os animais e os insetos sentiam a mudança no ar. Um sentimento estranho brotava em cada um deles. Era a urgência. A urgência gritava para que saíssem enquanto havia tempo. Ninguém notou que os animais estavam fugindo. Os animais sempre percebem estas coisas antes. Só os ratos ficaram. Estes multiplicavam-se dia a dia, assim como a energia. Os ratos sabiam que em breve haveria muita comida. Eles tinham o seu papel nesta trama. Aguardavam ansiosamente pelo banquete, certos de que ele seria farto.
Alguns pássaros não haviam partido, na esperança de alertar a cidade. A missão dos pássaros era a de avisar que a noite seria mais longa, à medida que o dia seria apenas uma breve lembrança do sol. Mas eles não percebiam que os pássaros surgiam cada vez mais tarde.
A mensagem fora em vão. Não tardaria para que os pássaros sumissem também, assim como o sol. Sem o sol, a energia se tornaria mais densa, forjando as trevas necessárias para o seu retorno. Sim, em breve ele estaria de volta. Não que ele houvesse se retirado, estava apenas
aguardando. Suas crias brincavam pelo mundo, enquanto ele aguardava pacientemente que vertessem a água. Então, ele pisaria na Terra novamente. Havia portas abertas demais, seria impossível ignorá-las. Em breve, ele estaria de volta.”



“Esperamos pela luz mas contemplamos a escuridão.”
Isaías 59: 9

Leiza

Se lembra quando a gente fazia planos
Pensando sempre em como seria
Alguns anos mais tarde
Sobre o que faria da vida

Nas manhãs de sol
Eu partia sem rumo
E nas manhãs de chuva
Entrava no seu mundo.

Sentado sob uma praça abandonada
Ouvindo suas palavras
Às vezes sem sentido
Às vezes não falava nada.

O que de fato importava
Naquele tempo, naquela praça,
Era o quão errados estávamos
Sobre quase tudo que pensávamos.

O tempo passou.
Tentou, mais não nos afastou.

E a menina de cabelos escuros e pele morena
Que antes me pedia conselhos,
Hoje me dá novas esperanças
De poder ser, tal como nas lembranças.

Porque o que restou daquele tempo,
Não foi a praça, nem as manhãs de chuva.
Foi o meu carinho por você,
Que passa tempo, passa tudo, mais nada muda!

O tempo vai passar.
Vai tentar, mais não vai nos separar...

Fim dos Sonhos

Os dias estão frios.
Os meses custam a passar.
E as lembranças espessas
Voltam a me torturar

Lembrança de dias felizes
De tempos ausentes
E a dor inquieta
Dos dias presentes

A sombra do homem
Com seu passado glorioso
Só resta os escombros
De um tempo precioso

O que se perdeu
Nunca mais irá voltar.
E ao corpo tão cansado
Agora só resta esperar.

O tempo vai terminar
O que a destruição já começou.
O fim de muitos sonhos.
Já todos sem valor

O maior inimigo do homem
É o tempo.
Implacável como sempre
Impenetrável como o silêncio.

Enquanto grita a vontade de ficar
Já não resiste mais a dor de partir...