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domingo, 19 de agosto de 2018

Sherlock Holmes em: Au revoir, mademoiselle Adler

Uma história de: F.H.Canata

               O bom Lestrade esperava-me em minha sala de visitas há algumas horas. Era uma linda manhã se me lembro bem, detalhes triviais como um agradável dia de verão ou um dia completamente obscuro pela densa neblina só me eram gravados na memória, se fizessem de algum modo parte de alguma investigação dos meus registros, caso contrário eu nunca dedicara atenção a eles de forma precisa. Watson não dividia mais o 221B da Baker Street comigo na época, de forma que, a excitação de Lestrade teve que esperar sozinho até que eu acordasse por completo e me vestisse para o café da manhã. 
               - Oh, Holmes temo trazer-lhe notícias desfavoráveis. Ela...
               -Fugiu.  – Completei de forma brusca a frase, olhando calmamente a rua com seus cabriolés vespertinos, pouco apressados, uma vez que era um domingo como tantos outros, dia de descanso.
               - Então o senhor já sabe, senhor Holmes? Como soube? – Perguntou-me incrédulo o inspetor da Scotland Yard.
               - De certa forma, sim. Os fatos que eu sei, eliminam teorias e induz-me a deduzir o óbvio- Disse-lhe.
               -O senhor surpreende-me senhor, com seus métodos.
               -Não há nada para se surpreender aqui Lestrade. Basta apenas analisar sob a perspectiva correta. Apesar do sono, pude ouvir o murmúrio da voz calma da Senhora Hudson no andar de baixo há, ao que deduzo, umas duas horas atrás, dizendo-lhe que eu estava ainda na cama e que você poderia me esperar aqui. Enquanto me trocava, escutei seus passos apreensivos pela sala de espera e o barulho da corrente de seu relógio várias vezes, o que claramente, me mostrou que você estava ansioso para falar comigo, mas não era um portador de boas notícias, se assim fosse, teria me pedido para acordar imediatamente, mas você preferiu corroer-se com a aflição de quem não quer perturbar Sherlock Holmes enquanto ele dorme com notícias ruins. Uma vez que você e seus homens estavam atrás de um único objetivo, os fatos em si me sugeririam a resposta. Ela fugiu e você veio aqui na intenção de avisar-me do seu infortúnio.
               -Juro Holmes que não sei como ela conseguiu. Mantivemos atento-nos o tempo todo e ainda assim, ela se foi bem diante de nós. Como num passe de mágica.
               -Ora homem, a mágica em si é a sutil arte de desviar a atenção. E este tempo todo você e seus homens da Scotland Yard foram apenas meros espectadores da senhorita Adler.
Ela partiu de Londres ontem à noite no trem para Liverpool. Pegou os passaportes falsos que encomendara à sir Wallace, um dos melhores falsificadores de toda a Londres e de lá, partiu para França. Esses são os fatos que eu sei. Agora, deve estar em qualquer lugar do mundo, menos aqui no ocidente. Seria arriscado até mesmo para ela manter-se perto por hora.
               -Santo Deus homem e como é que sabe disso tudo? – Perguntou-me Lestrade.
               -Porque eu disfarçado a segui desde que ela saiu também habilmente disfarçada de um senhor de meia idade, bem diante dos seus homens.
               -E porque é que o senhor não nos alertou Holmes?
               -Porque meu caro Lestrade, eu encerrei o caso. Está terminado.
               -Terminado? Ora, mas o senhor mesmo acabou de dizer que ela conseguiu fugir! Como pode estar terminado?
               -Porque eu digo que está. Irene Adler era um perigo enquanto esteve por perto. Agora que se foi, não devemos mais nos preocupar com ela.
               -Então isso quer dizer que acabou? – Fitou-me aqueles olhos astutos do inspetor.
               -Sim. Acabou. Nem eu, nem o senhor, nem toda a Londres, jamais ouvirá de novo o nome Irene Adler. E este é o fim do caso. Agora, poderia fazer-me a bondade de me passar o Daily Chronicles desta manhã que está na mesinha. Ah, obrigado. Detestaria começar o dia sem procurar no jornal um novo caso para minha mente...

sábado, 25 de novembro de 2017

TER O SONHO DE SER ESCRITOR, NÃO É COISA FÁCIL!

Primeiro que escrever não é fácil. Tem gente que peleja a vida toda pra conseguir fazer aquelas redações de trinta linhas que caem em uma prova e a língua portuguesa em si é toda cheia de regras e coisas que de certa forma fazem a grande maioria desistir por "não saber a diferença entre verbo transitivo direto e indireto" 
Mas às vezes você se sente bem quando escreve, do seu jeito. Todo errado com as normas, usa vírgula demais, esquece de alguns pronomes e nem sabe a diferença entre "Perca ou Perda".
Mas mesmo assim você continua, porque te faz bem escrever.
Às vezes, faz tão bem que você se pega escrevendo histórias de três folhas naquele seu caderninho guardado no fundo da gaveta. Você as lê uma vez ou outra e pensa: Poxa vida, eu acho que eu quero ser escritor um dia.
Duas horas depois relê o que escreveu e pensa: "Mas que porcaria de texto! Vou jogar isso fora!" Mas alguma coisa te impede de rasgar aquele texto mal (bem) escrito do caderninho e ele fica ali.
Você insiste. Começa a ler mais, porque sim, lendo você amplia sua mente e fica fascinado com seu autor preferido, com o jeito como ele consegue escrever e que, na sua cabeça as palavras dele ganham vida e é como se você pudesse sentir a história que ele escreveu. Seu sonho de ser escritor se reaviva dentro de você.
Os anos passam. Você evolui. Agora ao invés de um caderninho, você tem vários deles e sua escrita começa a melhorar apesar de você ainda achar um lixo.
Mais um pouco de tempo se passa e você então tem uma ideia, de súbito. Tá lá, caminhando na esquina pra ir comprar pão pro café da tarde e tem uma ideia. Algo nasce em você. Uma história. Uma história que você sente vontade de escrever sobre ela.
Chega em casa e depois de tomar o café da tarde, pega um caderno novo e começa a escrever sobre essa história. Hum, parece ser boa. Sim, você sente a história e começa a passar ela para o papel.
Aí sim, você acredita que quer ser escritor.
mas ledo engano meu caro, se pensa que as coisas vão começar a funcionar.
Escrever leva tempo antes de tudo. Você pode escrever cinquenta palavras por minuto ou escrever quinhentas. Tanto faz. Escrever leva tempo. Você trabalha, estuda, namora, pratica esportes, dorme. E no meio disso tudo, você ainda tenta escrever sempre que pode.
Em certo momento, vai se abrir com alguém e contar que sonha em ser escritor. A primeira reação da outra pessoa é a de incentivo. Mas vai ler seu texto e no primeiro erro ortográfico, ela vai (se for sincera) dizer que é melhor você ir com calma, que ser escritor é coisa complicada. De fato é.
Você vai se desanimar e vai guardar essa história junto com as outras, que agora já estão numa caixa porque não cabem mais na gaveta.
Sua vida continua e uma hora, você tropeça nessa caixa sem querer e relê a história. No mesmo instante, você se recorda da história toda na sua cabeça que você ainda não terminou de escrever. Volta, corrige os erros que pode (alguns vão passar mesmo assim) e retoma a história. "Parece estar boa"
você pensa consigo mesmo. E então, lá vem o sonho de ser escritor de novo em sua mente. Você procura alguém que entende de livros e mostra sua história. Essa pessoa te diz que ela é boa, que pode ser melhorada, mas é boa. Você retoma a auto estima e passa a se dedicar pra que você enfim, seja um escritor.
Parece que tudo vai dar certo, finalmente.
Errado.
Lembra que eu escrevi ali em cima que "escrever leva tempo?" Seu tempo já está organizado e você não se preparou para ter um tempo para escrever. As pessoas a sua volta não vão te entender. Vão te falar que você está perdendo tempo da sua vida se dedicando a alguma coisa que não tem futuro.
Sua família, seus amigos e até sua namorada, vão dizer que você gasta seu tempo com uma coisa "sem futuro" e é aí que realmente a gente vai saber se você é escritor ou não. Não é quando seu livro sair bonitinho, todo diagramado, revisado profissionalmente (porque você vai escrever muita coisa errada e existem pessoas que vão corrigir isso pra você, mas você ainda não sabe) quando ele tiver uma capa bonita e tiver forma, com um título e seu nome escrito nela. Não, não é aí que você se torna um escritor.
Você se torna um escritor, quando, nesse momento da sua vida, onde todo mundo a sua volta diz que você está "perdendo tempo com algo que não vale a pena" você decide optar pelo SIM. Opta por continuar a escrever.
Vão te chamar de antissocial, de vagabundo, de uma infinidade de coisas que você vai ter que ouvir calado.
Vai escutar sua mãe dizendo que você só fica na frente do computador e "não faz nada" Vai escutar sua família falando que você não passa tempo suficiente com eles, sua namorada vai te dizer que você não está dando atenção suficiente a ela. E tudo isso, porque você decidiu que quer ser escritor.
Você vai acordar no meio da madrugada e alterar dois capítulos inteiros só porque teve um sonho tão bom, que decidiu mudar a história, vai começar a dormir um pouco menos e se dedicar um pouco mais.
Vai escrever trinta páginas por dia, bem diferente de quando você escrevia três por semana e aí, SÓ AÍ. Algumas pessoas vão começar a te dar valor.
Você vai mostrar o que escreveu para algumas pessoas e finalmente vai ouvir um "Nossa, parece bom! Quero saber como termina" E aí meu caro, aí então, você JÁ É UM ESCRITOR.
Mas quem decide como termina, é você, afinal, essa é a sua história, não a minha...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

De volta à Cidade do Medo (Capítulos disponíveis no Wattpad)

O primeiro romance policial do autor deste blog: F.H.Canata agora está com seus primeiros capítulos disponível GRATUITAMENTE  no Wattpad 




Um Romance Policial que promete te intrigar do início ao fim!

Sinopse:
Fred leva uma vida tranquila numa cidade do interior paulista, até que sua vida sofre um grande abalo. Após passar por uma tragédia e ter que lidar com a responsabilidade da culpa, ele decide deixar sua cidade natal e mudar-se para a capital, tentar recomeçar a vida longe das lembranças de seus erros
.
Sete anos se passa e ele é agora Frederico Machado, investigador da DHPP de São Paulo, mesmo atormentado pelas lembranças do passado ele consegue seguir sua vida solucionando homicídios e está prestes a ser delegado. Mas então uma ligação no meio da noite de um antigo amigo do passado muda tudo.
Na manhã seguinte, lê nos jornais que Murilo cometeu suicídio. O mesmo amigo que na noite anterior lhe fez uma ligação misteriosa e cheia de palavras que antes pareciam desconexas, mas que agora lhe dão apenas uma certeza, não fora suicídio. Seu amigo havia sido assassinado.
Fred então terá que voltar a cidade que lhe traz péssimas lembranças, uma cidade que lhe traz recordações que ele não quer relembrar. Mas é obrigado a enfrentar os fantasmas de seu passado para solucionar o assassinato de seu amigo.
Junto com outro velho amigo que agora é delegado, Fred e Edvaldo logo vão descobrir que a morte de Murilo foi apenas o começo. Outros eventos misteriosos vão colocar a sanidade de Fred a prova e ele terá que lidar com seus demônios pessoais, terá que remexer em velhas e doloridas lembranças na tentativa de capturar um misterioso assassino que parece ligado a seu passado e dedicado a vê-lo cada vez mais perdido em seus medos e tormentos.
E logo ele descobrirá que a vida de todos a sua volta correm um grande risco…

De volta a cidade do Medo é um romance policial que levará o leitor a uma enigmática caçada a um assassino misterioso e calculista, ao mesmo tempo em que despertará a curiosidade de seus leitores sobre o intrigante passado de seu protagonista cheio de lacunas e mistérios, é um livro que nos fará pensar até que ponto somos capazes de enfrentar nossos medos sem perder a sanidade.

sábado, 13 de abril de 2013

Matéria do Estado de S. Paulo: Lygia Fagundes Telles, testemunha literária


A leitura de hoje, é a reprodução da matéria de Ubiratan Brasil do Jornal: O Estado de S. Paulo com uma entrevista a escritora Lygia Fagundes Telles, publicada no caderno Sabático 











(Para ler a entrevista diretamente na Página do Jornal Estadão Acesse o Link: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,lygia-fagundes-telles-testemunha-literaria,1020463,0.htm)




Lygia Fagundes Telles, testemunha literária
A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de 'As meninas' pela censura



Para João Ubaldo Ribeiro, é a grande dama da literatura brasileira. Milton Hatoum destaca a magnitude e a perenidade dos contos de Antes do Baile Verde e Seminário dos Ratos, livros publicados nos anos 1970. Já Ignácio de Loyola Brandão garante não "existir, na literatura brasileira, uma pessoa mais adorável". Próxima dos 90 anos (completa na sexta-feira, dia 19), a escritora Lygia Fagundes Telles é praticamente uma unanimidade. Autora de uma obra de estilo elegante, ecos machadianos e um permanente estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade, Lygia sempre oferece ao leitor a oportunidade de pensar sobre suas existências.
Basta conferir sua obra, reeditada com esmero pela Companhia das Letras desde 2009. Muitos livros se tornaram clássicos, como o romance As Meninas, de 1973, "livro até hoje muito lido nas escolas, pois reflete o impasse de jovens que viveram numa época obscura", observa Milton Hatoum. "O destino das personagens é, de algum modo, o destino de uma geração movida por sonhos de liberdade sexual e política, ou por um desejo de ascensão social. É um romance que opera com o equilíbrio entre o psicológico, o social e o político. Sem dúvida, um dos melhores livros da autora."

De fato, a literatura sempre foi, para Lygia Fagundes Telles, um caminho para mudar o mundo. Pelas letras, ela transmite aos leitores a aventura de novos conhecimentos - seja pelos detalhes do cotidiano, pelo devaneio particular ou mesmo pela vida da imaginação. "É uma escritora que se dedica aos temas universais: a loucura, o amor, a paixão, o medo, a morte", observa o crítico José Castello, autor do posfácio da nova edição de Seminário dos Ratos.

Mesmo assim, é uma mulher ligada ao cotidiano. Em seu apartamento, em São Paulo, vive rodeada de boas lembranças: fotos dos dois maridos (Goffredo da Silva Telles e Paulo Emílio Salles Gomes), do filho querido Goffredinho, de amigos e de viagens inesquecíveis. Nos últimos meses, Lygia recebeu o Sabático para reavivar lembranças, escrevendo ou falando, como as que vêm a seguir.

Clarice Lispector

Era uma grande amiga, além de excepcional escritora. Sempre me dizia: "Liginha, não sorria nas fotos. Ninguém leva a sério mulher que aparece sorrindo na fotografia!". Também era ótima companhia em viagens. Certa vez, em Cali, na Colômbia, abandonamos os debates para ficar no bar, bebendo champanhe (ela) e vinho tinto, enquanto ríamos gostosamente e ela pedia a minha opinião sobre quem era mais indiscreto nas suas traições, o homem ou a mulher. Aliás, na viagem de ida, quando o avião balançava muito e eu estava preocupada, Clarice se voltou para mim e disse: "Não tenha medo porque o avião não vai cair. Minha cartomante disse que eu morreria deitada, portanto, fique tranquila". Esse misticismo era contagiante. Certa noite, quando eu dormia em um hotel da cidade de Marília, onde participava de um seminário, fui acordada por uma andorinha desgarrada, que entrou voando no meu quarto. Levei um susto, mas logo estranhei a forma como o animal me encarava, muito amigável. Logo, consegui que o pássaro saísse pela janela. No dia seguinte, fui informada que Clarice morrera naquela noite. Só consegui dizer, baixinho: "Eu já sabia".

Ato da escrita

Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia. É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três 'Is'.

Mao Tsé-tung

Era um homem atarracado, com os olhos muito puxados e uma expressão quase imutável. Em nossa visita à China (éramos vários escritores), nos presenteou com um livro de poemas, escrito por ele mesmo, em francês e chinês. Os versos até que eram bons.

Monteiro Lobato

No longo corredor que me pareceu sombrio, o carcereiro avisou que a visita teria que ser breve, mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdeada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. "Este aqui é um caro editor", apresentou-o e disse o nome do editor que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, "ah! as paixões da minha adolescência": Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-pererê...
Ele me interrompeu com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas porque livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler, mas não liam e daí a ideia das cartas curtas e diretas. "Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso. A mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?" Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante: "Pois foi lá que eu me formei!". Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. "Ah! Se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?" Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, eu era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim anunciar um bom emprego. Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances...

Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro. "Olha aí, a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!", disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta. "Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça."

Faculdade de Direito

Decidi ser advogada por causa do meu pai, Durval, que também se formou na São Francisco. Era um homem lindo, adorável, mas que tinha um grande pecado: era um jogador contumaz. Adorava roleta. Ele me levava a um cassino em Santos e, enquanto eu, pequena, tomava uma enorme taça de sorvete, meu pai jogava as fichas e as perdia, uma a uma. Quando íamos embora, derrotados, ele sempre dizia: "Hoje perdemos, mas amanhã a gente ganha". Eu o admirava muito. Mas não foi fácil estudar na São Francisco. Na minha turma, éramos apenas seis mulheres entre mais de cem homens. Todas virgens! Certa vez, um dos meus colegas me perguntou: 'O que vocês, mulheres, querem aqui na faculdade? Casar?' Respondi, de bate-pronto: 'Também!' Mal sabia ele que me casaria com um dos professores (Goffredo da Silva Telles).

Hilda Hilst

Verão de 1952. Eu já estava casada com Goffredo quando a Hilda foi nos visitar no Rio. Ficou hospedada no Hotel Olinda, em Copacabana. Ela usava um maiô claro de tecido acetinado, inteiriço, na moda, os discretos maiôs inteiriços. Lembro que tinha no pescoço um longo colar de conchinhas. Falou-me dos novos planos, tantos. Estava amando e escrevendo muito, quando ela se apaixonava a gente já sabia que logo viria um novo livro celebrando o amor. Nesse sábado, tínhamos marcado no nosso apartamento um encontro com alguns amigos, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Breno Accioly, José Condé... Hilda Hilst chegou toda de preto, os cabelos dourados soltos até os ombros. Falou em Santa Teresa d'Ávila, a do "amor duro e inflexível como o inferno". Pedi-lhe que dissesse o seu poema mais recente. Então, eu me lembro, Cyro dos Anjos cumprimentou-a com entusiasmo e começou a examinar a pequena palma da mão que ela lhe estendeu, ele sabia ler o destino nas linhas da mão.

Livraria Jaraguá

Segunda Guerra Mundial, ano de 1944. Eu era uma mocinha de boina, morava com a minha mãe num apartamento na Rua Sete de Abril e duas vezes por dia passava pela Rua Marconi, quando ia para as aulas na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. E quando retornava no final da tarde, emendava a manhã com o meu expediente de trabalho na Secretaria da Agricultura, onde colava retratos, era uma estudante pobre.
Nessa Rua Marconi ficava a bela Livraria Jaraguá, de Alfredo Mesquita, e onde se reuniam as mais importantes personalidades da tranquila cidade de São Paulo, comoção da minha vida! - no desabafo ardente de Mário de Andrade. Esse mesmo Mário de Andrade que foi um dos primeiros frequentadores da livraria nos encontros no fim da tarde, ele o Oswald de Andrade. A esses intelectuais mais velhos (Sérgio Milliet, Lívio Xavier, Sérgio Buarque de Hollanda) foi se juntando um grupo de jovens, os fundadores com Alfredo Mesquita da revista Clima: Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Ruy Coelho, ah, tanta gente e tantos projetos. Tantos planos. Era a elite intelectual da Faculdade de Filosofia, os jovens herdeiros da Semana de 22 e aos quais Oswald de Andrade apelidou de chato-boys: "Com oito anos eles começaram a ler Marcel Proust e com dez já discutiam Spengler, ai! não aguento tamanha precocidade!", disparava Oswald de Andrade e Alfredo Mesquita dava aquela risadinha cascateante.

Paulo Emílio Salles Gomes

Meu segundo marido era um homem encantador, inteligente, vibrante, irônico. Ele me apelidou de Cuco, brincadeira com o relógio de uma velha tia cujo cuco sempre cantava as horas com atraso - eu sempre me atrasava para nossos compromissos. Também apelidou meu filho Goffredinho de Cré, pois, nas aulas de francês, quando o garoto errava feio, Paulo disparava: 'Crétain!" (cretino). Paulo sempre foi um grande incentivador da minha obra, especialmente nos momentos mais difíceis. Como em 1973, quando publiquei As Meninas. Era época pesada da ditadura militar e eu me inspirei, entre outras coisas, num panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político. Coloquei isso no meio da trama e fiquei apreensiva quando o livro foi enviado para a censura. Enquanto aguardava, nervosa, o veredicto, fui surpreendida pela chegada, alegre, de Paulo, em nosso apartamento. Ele trazia uma garrafa de vinho e estava muito disposto a comemorar. Logo explicou: aborrecido com uma história em que não acontecia nada, o censor só lera algumas páginas, não chegara àquele ponto da tortura e liberava a obra.

Dom Casmurro

Eu estava na Faculdade de Direito quando li pela primeira vez Dom Casmurro, uma edição que comprei em um sebo. Achei, então, que Capitu era uma santa, uma pobrezinha; e ele, Bentinho, um neurótico, um doido varrido, histérico. Conversei com as minhas colegas, éramos seis mulheres, sobre a leitura, e eu dizia: "Não pode isso, esse homem é um louco, neurastênico, desesperado, casado com uma santa em que via a traição." Enfim, não li mais o livro. A segunda leitura foi na maturidade. Estava casada com o Paulo Emílio e preparávamos Capitu (roteiro filmado por Paulo César Saraceni e lançado pela Cosac Naify). Reli o livro e disse ao Paulo: "Mudei completamente de ideia, a mulher traiu ele, sim, o filho não era dele". E ele me perguntou: "Você tem certeza? Cuco, você não pode ser juiz, temos que suspender o juízo, como o próprio Machado queria." E eu: "Mas eu não posso suspender, esse homem é um doido, coitada dessa mulher". "Cuco, não vista a toga de juiz. Vamos apresentar o roteiro como está no livro. Você está ficando com a cara do Bentinho!" "E você então está me traindo!" Capitu traiu Bentinho? Eu já não sei mais. Minha última versão é essa, não sei. Acho que, enfim, suspendi o juízo. No começo, ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei.